I disapprove of what you say, but I will defend to the death your right to say it

Evelyn Hall

Quem anda pelas redes sociais já se deparou, seguramente, com alguém a apelidar outrem de Avençado, numa discussão sobre qualquer assunto.

Para quem não sabe Avençados são as pessoas que recebem avenças, ou seja, que recebem uma soma de dinheiro em troca de um determinado trabalho, que pode ou não ser solicitado, sendo que o pagamento é sempre efectuado!

Ora nas redes sociais, a forma mais comum para desqualificar a opinião do outro e ainda o “maltratar” é chamar-lhe precisamente avençado! É quase uma palavra mágica! Alguém dá a sua opinião e o outro, sem grande vontade de debater, acusa peremptoriamente o primeiro de ser pago para ter aquela opinião… Como se esta fosse de tal forma absurda, que só é possível ser proferida por alguém pago para a dizer!

Uma espécie de mercenário da opinião!

Esta moda faz-me lembrar o Princípo de Godwin.

Em 1990 Mike Goodwin, um advogado americano, criou o seguinte adágio sobre debates na Internet: “À medida que uma discussão online se alonga, a probabilidade de surgir uma comparação envolvendo Adolf Hitler ou os nazis tende para 100%.” in Wikipédia

Nós portugueses, como gostamos de inovar, criámos o “avencismo“.

O “avencismo” consiste em acusar gratuitamente qualquer pessoa que tenha uma opinião, com a qual o seu interlocutor não concorde mas que não lhe apeteça debater, chamando-a de avençado e a discussão está ganha!

E nem precisa de demorar muito tempo… Ou haver grande debate… (às vezes nem há nenhum!)

Quem partilha a sua opinião pelos facebooks, twitters e outras redes sociais já foi, seguramente, apelidado de ser avençado… Aliás o “avencismo” hoje é de tal forma corriqueiro que, se fosse verdade, meio mundo estaria a pagar a avença a outro meio mundo e o problema da economia global estaria agora, não na escassez de recursos, mas sim na desvalorização dos mesmos, tal a abundância com que seria usado para pagar estas opiniões.

Este é o sinal mais forte e significativo de como o “debate” hoje está empobrecido, de como é quase impossível debatermos ideias porque na maioria dos casos existe uma enorme pobreza de argumentação ou, quando existem, baseiam-se em “soundbites” falsos (fakenews) que não permitem o contraditório!

E sem esta troca de ideias salutar, estamos a destruir a própria democracia e a ficarmos à mercê dos movimentos populistas ou totalitários, onde predominam o pensamento único e os unanimismos!

E este é o grande perigo!

Lembrem-se que em democracia ganha o que mais votos tem, o que nem sempre significa que seja o melhor! E tal como já aconteceu nos Estados Unidos e, ao que parece, pode acontecer no Brasil, os eleitores escolheram, ou poderão optar no caso do Brasil, por propostas que prometem soluções fáceis e irreais, para problemas muito complexos!

E claro que o voto é deles, mas as consequências são sofridas por todos!

E é por isso que importante que haja liberdade e vontade para discutir todos os temas para que possamos, como povo, aprender e através dessa aprendizagem, crescer!

É de facto importante lembrar-mo-nos que os outros têm direito à sua opinião, por muito estúpida que esta nos pareça. E que a minha liberdade de opinião não é limitada pela qualidade da mesma.

Eu sei que os tempos que correm andam de feição para radicalismos e para posições de força quase irredutíveis, que são muito potenciadas pela impessoalidade das redes sociais.

Se as discussões que acontecem nas redes sociais fossem cara-a-cara, a grande parte das pessoas que têm as posições mais radicais provavelmente não as teriam. E nem apelidariam os outros de serem avençados.

Aprendamos a conviver com estas diferenças para que a nossa liberdade de opinião ou dizer parvoíces (dependendo do ângulo que se olha) se mantenha por muitos e longos anos e não venham outra vez os Nazis, dizer-nos o que podemos ou não pensar!

Saudações Leoninas!

Comentários do Facebook