Prometi, que só ia escrever sobre a AGE23, quando a situação do Sporting estivesse resolvida e «estável» novamente. Com a devida passagem do tempo que me permitiria ver o que ali aconteceu de uma forma mais fria. A situação não é a ideal, mas sinto que é tempo de escrever.

Terminei o dia 23 de Junho, depois de 12 horas dentro do Altice Arena, com a seguinte frase no meu Twitter: «Temo pelo meu Sporting». No entanto, quando o dia começou, nada o fazia prever.

Uma nota prévia a este meu relato: este escrito é um testemunho daquilo que os meus, e só os meus sentidos apuraram. A minha leitura. Uns poderão ter sentido diferente. Outros, que nem lá estiveram, falaram com a propriedade de quem está habituado a dissimular ou a seguir cartilhas, como certos jornalistas da nossa praça. Outros poderão concordar comigo. Entendam como melhor vos aprouver.

O Início

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À chegada ao Parque das Nações, uma dezena de cameras de filmar, outra igual de jornalistas de  microfone na mão, despertavam a curiosidade de turistas e «passantes». O encontro estava marcado, com os consócios do Núcleo Sportinguista do Twitter – na sede mais ecológica do país (uma árvore) – para as 12h.

A recusa de algumas pessoas em falar para a CS mostrou desde cedo o sentimento de alguma «revolta»: «Não quero falar» ou «o voto é secreto» eram as respostas mais ouvidas.

Entrei no Arena pouco antes das 13h. Os lugares escolhidos mesmo em frente ao palco permitiam a audição e visão claras de tudo o que ali se fosse passar.

Ao contrário do que foi dito e repetido, não vi nenhum grupo de 50/60 sócios organizados «apenas nos lugares da frente» apostados em armar confusão. O que vi foram reações quase guturais de sócios de cada vez que avistavam algo que lhes desagradava. Um exemplo: José Eduardo a passear-se pela «zona reservada». Outro: cada vez que Jaime Marta Soares falava. E isto foi uma constante durante toda a assembleia.

Eu estive à frente, estive atrás. Estive lá em cima nas bancadas – havia apenas um bar a funcionar o que obrigava a percorrer todo o piso do Altice e subir a escadarias até à porta de entrada – estive perto de uma hora para votar, com a fila a começar na última bancada do Arena. E os protestos, os muitos protestos ouviam-se em todo o pavilhão. Não apenas numa determinada zona.

Inscreveram-se várias pessoas para falar. Contei até aos 47 consócios. Desses, apenas seis discursaram a favor da destituição. E sim, foram vaiados. E não, não apenas por 50 sócios sentados à frente do palco. Os outros 41: palmas.

Todo o ambiente que se fez sentir naquelas 12 horas que lá estive dentro era contrário ao desfecho da votação. Marta Soares inicia a sessão perguntando se queremos deixar a CS gravar a Assembleia. Deve ter recebido a maior vaia da sua vida. Decide a aprovação da acta da assembleia anterior que, por sinal, já tinha sido aprovada na AGE de 17 de Fevereiro. Queixa-se que não o deixam falar. E na imensidão do Altice, são 50 sócios que não o deixam falar?…

O número de pessoas vai aumentado significativamente durante a tarde. Se disser que deviam estar 40 graus dentro do pavilhão, não devo estar longe da verdade. Nem nos melhores concertos da minha vida a dançar e a pular me lembro de ter passado ali tanto calor! Se a isto juntarmos apenas um bar… É no mínimo estranho para um evento desta envergadura.

Bruno de Carvalho e Álvaro $obrinho

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O primeiro episódio da tarde dá-se com a entrada de Álvaro Sobrinho. Na fila para votar, oiço as pessoas dizer que Sobrinho vai à AGE. Ninguém acredita até à sua entrada – escoltada – pela entrada lateral no 1º balcão do pavilhão. Quando as pessoas se aperceberam que era mesmo ele foi o caos. Porque entrou Sobrinho escoltado? O que temia? E porquê? Não saí da fila. Não sei se houve agressão ou não. Sei que o próprio desmentiu. E sei que o homem foi insultado, vaiado e teve de se barricar no WC, tal foi a revolta demonstrada pelas pessoas quando o viram.

O segundo e mais significativo episódio da tarde acontece com a entrada de Bruno Carvalho e de outros elementos do ex CD no pavilhão, perto das 19h. Só me apercebo que é BdC quando oiço gritar «Presidente». Oiço palmas, vejo as pessoas dirigirem-se a ele e abraçarem-no. A ele, a Carlos Vieira, a Luís Gestas. Aquela que foi uma entrada triunfal, perante o olhar incrédulo e preocupado de Marta Soares e Eduarda Proença de Carvalho. BdC dirige-se à mesa para pedir a palavra, o que lhe é recusado.

Os momentos que se seguem são de espera, de incerteza do que vai acontecer. Nesta altura, aproveito para ouvir as pessoas. Ver o que se passa. Escrever alguns tweets. Bruno de Carvalho vai votar e com ele, os elementos do CD que o acompanham. As pessoas aplaudem e pedem «Não desista de nós». Recebem sorrisos e abraços e, como resposta, «Não se vão embora. Fiquem até ao fim da contagem!».

Vejo um misto de emoção e preocupação nas suas caras. Entoam-se cânticos, grita-se pelo presidente. E espera-se. Todo o ambiente que ali se vive, todas as conversas durante o dia, todos os indicadores levam a crer que a votação será contra a destituição. Até ao momento em que começa a contagem dos votos e, com ela, a contra informação.

Não sei como é possível que, uma hora e meia depois do início da contagem dos votos, a CS já tenha os resultados bastante aproximados dos reais. Sei que se formou uma fileira de sócios em frente às mesas com as urnas para a contagem dos votos. Ninguém arredava pé. Não podia cair um voto no chão, JMS não podia levar uma mão ao bolso sem que os sócios estivessem atentos e a chamar a atenção.

Os primeiros resultados na CS mudam o ambiente do pavilhão. As pessoas começam a perguntar-me o que se passa, se já há resultados, porque é que se vive um clima de quase «guerra civil» lá dentro.

Os Resultados

img_3724Fico incrédula! Resultados com 4 urnas contadas?! Guerra civil?! O ambiente não podia ser mais tranquilo! Bruno de Carvalho passeia pelo Arena. Fala com todos os sócios que se aproximam. Está longos minutos à conversa com grupos diferentes. Como ele, os outros elementos do CD. Mas a CS insiste. Ao ponto de «confundir» a mudança de turno dos agentes de serviço com um reforço policial inexistente, desmentido em directo.

As horas passam. A angústia aumenta. As pessoas não queriam acreditar que a CS já soubesse os resultados desde as 22:30h e nós, lá dentro, só tenhamos sido informados bem perto da uma da manhã.

O que se segue, já todos sabemos. Um resultado esmagador, que até hoje, não convence os apoiantes de Bruno de Carvalho. Mas, sobre isto, a palavra está com os tribunais. Não duvido que, num futuro próximo, muito será explicado.

Três notas finais:

Para o grupo de pessoas que se juntou no final da AGE23, cá fora com o presidente. O que vi no final dessa noite foi um homem cansado. Magoado. Mas perfeitamente lúcido. Um homem a quem se pediu que não desistisse, numa conversa directa, franca e calma. Foram as palavras mais esclarecedoras que ouvi, até hoje, de Bruno de Carvalho. Sem holofotes, sem tv´s… Conheci pessoas nesse dia e nesse bocadinho de noite que vão ficar comigo para a vida.

Para as muitas pessoas que me seguiram no Twitter e a quem tentei sempre informar ao máximo. Sempre do meu ponto de vista, obviamente, mas tentando sempre ser fiel aos acontecimentos vividos. Obrigada a todos pelas palavras de incentivo e de agradecimento.

Para a minha família: de sangue e Sportinguista que me acompanhou neste dia in loco e à distância. Com vocês, tudo é mais fácil.